terça-feira, 6 de maio de 2014

ATUALIDADE DAS RAÍZES LIBERTÁRIAS DO PENSAMENTO DE MADAME DE STAËL

Castelo de Coppet, na região do Vaud, na Suíça, onde Madame de Staël organizou, na primeira década do século XIX, o famoso colegiado de intelectuais liberais que passou a ser conhecido como "Grupo de Coppet". (Foto: Wikipedia).
Madame de Staël e Henri-Benjamin Constant de Rebecque, pelas suas origens suíssas, constituíram uma geração precursora do Liberalismo Doutrinário francês, notadamente no que tange à crítica ao vício do estatismo, tão longamente enraizado na cultura francesa. Muito se escreveu sobre este aspecto e acerca da contribuição da geração de Coppet, para a consolidação de um libertarianismo de fala francesa. Ler Dix Années d´ Exil de Madame de Staël, ou Principes de Politique de Constant, é aspirar um ar de liberdade para redescobrir o valor do indivíduo e a perversidade do estatismo. A seguinte entrevista efetivada por conhecida pesquisadora brasileira, com o diretor do Instituto Coppet, retoma esse rico tema. Apareceu no portal do Instituto Liberal do Rio de Janeiro.


Entrevista com Institut Coppet: A liberdade reina na França?

Débora Góis*
Logo_Institut_Coppet
A França tem sua economia aberta para a iniciativa privada e ao mesmo tempo para as regulamentações do governo. Depois da segunda Guerra Mundial, o país adotou medidas protecionistas contra os produtos estrangeiros. Sua indústria nos anos 70 cresceu na base dos 33% estagnando nos anos 80, no final do século XX estava na posição de quarta nação industrial do planeta.
Desde já agradeço à grande disponibilidade do Instituto Coppet sobre a representatividade de Stéphane Geyres, Secretário-Geral do Instituto Coppet e Presidente do Mouvement de Libertariens em responder as perguntas envidadas e a colaborar com a seguinte entrevista, agradeço também a Marc lassort pela disponibilidade e auxilio no envio das respostas.
Analisamos primeiramente e questionamos a intervenção do Estado na França, através do protecionismo tecnológico, com a seguinte pergunta:
Débora Góis: Protecionismo Tecnológico na França: “O verdadeiro medo do progresso tecnológico cria uma crescente demanda por segurança”. A preservação da indústria francesa através de intervenção do Estado visa garantir retornos tecnológicos?
Institut Coppet: O Estado francês tornou-se Estado social após a Segunda Guerra Mundial, sempre esteve na França como o “protetor dos trabalhadores” e “classes trabalhadoras” em geral.  Ao longo da década de 1980, a “luta” da esquerda era focada em setores industriais, tais como o aço, estabelecendo pouco a pouco no inconsciente trabalhador a ideia de que a mudança tecnológica apresenta o emprego específico e que apenas o estado pode responder ou lidar. Vemos este mecanismo intelectual no caso de Titã-Goodyear, onde a retomada de uma fábrica de pneumática não pode ser concebida sem a proteção do estado de alguns trabalhadores em causa. Isto pode ser generalizado para todos os setores.
No entanto, esta procura incessante de “proteção e segurança” é economicamente irracional e contraproducente. Pode-se legitimamente duvidar se guiado por um desejo genuíno de preservar o know-how ou outros fatores de produtividade para preferir uma análise mais política, onde a real motivação é o desejo de manter ou alavancar a simpatia do eleito e, portanto, assegurar o voto da população ativa.
Encontramos este tipo de análise do protecionismo em muitos autores liberais. Pensa primeiro Frédéric Bastiat (receita protecionista), mas também Ayn Rand em Atlas Shrugged. Naturalmente, os economistas da escola austríaca – que pensamos Ludwig von Mises – também cobriu extensivamente o assunto.
DG: Quanto às importações, se o produto francês é 100% mais caro, as pessoas optam por pagar mais como “uma forma de fortalecer a indústria do país”?
IC: Não temos os dados econômicos, mas na verdade, é esse o discurso político e, provavelmente, acho que muitos franceses praticam acreditando ser o certo (melhor). Algumas partes oferecem aumentos salariais para aqueles que compram produtos franceses, contra toda a lógica econômica e até mesmo moral. Isto é um reflexo real da nossa ignorância econômica coletiva e a influência do pensamento do Estado.
DG: “O que é ser responsável? É etimologicamente responder por seus atos e suas consequências. A responsabilidade é, portanto, ser capaz de identificar-se como o autor de suas próprias ações, como a causa de uma série de efeitos. Uma vez que estes efeitos são atribuíveis a mim, eu sou responsável perante o tribunal de minha consciência ou os homens da corte.” A responsabilidade deve ser a ação fundamental do indivíduo que defende as ideias liberais? Como deve se comportar o cidadão francês para garantir sua liberdade dentro da ética e da legalidade do país?
IC: A responsabilidade é inerente à ação do homem livre, ela vem de si, não é necessário, enquanto homem livre, conceder mais atenção do que habitualmente. Mesmo assim ela deve ser reconhecida pela sociedade para ser eficaz e desempenhar o seu papel. E é através desse reconhecimento que as ideias liberais trabalham, na segurança que a sociedade funcione graças à atribuição e reconhecimento da plena responsabilidade de cada um.
Em uma sociedade estatista porque sua responsabilidade é removida gradualmente, o cidadão perde pouco a pouco os reflexos da prudência que a responsabilidade poderia ser lhe é imposta, e vemos pouco a pouco as sociedades estatistas arrastar caos de violência e miséria.
Na França, infelizmente, mas nem mais nem menos do que em muitos países – Brasil provavelmente -, podemos dizer que a medida da violência diária é um bom indicador social do lento desaparecimento da responsabilidade individual e liberdade andam de mãos dadas.
DG: De acordo com o Índice de Liberdade Econômica (2013), a França se encontra abaixo da 60º colocação. Qual a importância de mensurar a Liberdade Econômica na França? De que maneira é feito esse processo?
IC: Na verdade, há vários anos, também vemos com tristeza e preocupação que a França, uma vez que entre todos os “melhores” do mundo, continua a cair nos índices em relação à liberdade, econômica ou não.
Se não podemos responder sobre o processo seguido pela Heritage Foundation para estabelecer o índice – que está bem documentado em seu site – no entanto, só podemos confirmar a análise do interior. A França não é o que era.
Esta medida, da Fundação Heritage, ainda hoje amplamente reconhecida e continuamente melhorada – embora possa não ser perfeita – ainda é muito pouco conhecida no nosso país. Publicada em Inglês e dos Estados Unidos, o índice é estruturalmente condenado a uma pequena audiência na França, que dura um velho antiamericanismo doentio.
DG: O Governo francês apresentou seu projeto de orçamento para 2014, com números que a oposição considera muito otimistas e longe da realidade. Qual a visão dos institutos liberais a respeito?
IC: O Instituto Coppet não é por si só um estudo econômico focado no instituto atual. Nosso trabalho se concentra mais na disseminação do conhecimento e compreensão da teoria econômica relevante porque realista como a escola austríaca de economia, mas que não são diretamente especialistas que analisam a notícia.
No entanto, concordamos com a maioria dos nossos amigos em outros institutos (por exemplo, do Instituto Molinari) para identificar, sem muita necessidade de especialização que a classe política francesa como um todo e, em particular, o poder de não ter medição de questões econômicas. A primeira ameaça é a da dívida pública e sua origem, o peso do Estado, com a sua despesa pública para 57% do PIB, mas nenhuma ação séria foi tomada para o remédio.
DG: Na França, qual o nível de importância do liberalismo na política atualmente? Qual é a força da representatividade de ideias liberais nos partidos políticos?
IC: O liberalismo está politicamente em uma situação paradoxal. Por um lado, ele se tornou totalmente ausente do discurso político “mainstream” e nenhum partido político tradicional simplesmente ousam mencionar qualquer referência ao liberalismo. Mesmo o partido UMP de Nicolas Sarkozy está tentando tradição da direita conservadora, não sei o que falar sobre impostos e imposto de ter esquecido que a liberdade é a responsabilidade individual envolvidos.
Mas, no entanto, gosto e provavelmente sob a influência de um Ron Paul nos Estados Unidos ou um Nigel Farage ao Reino Unido – mesmo se o último não é um liberal perfeito – não há um renascimento da parte dos pequenos partidos. Assim, adepto de uma estratégia de penetração dos partidos de centro-direita, começa a apontar o Partido Liberal-Democrático do LDP, um seguidor do liberalismo bastante pragmático – mesmo que por enquanto permaneça imperceptível a eleitores não-esclarecidos. Por outro lado, o movimento libertário baseando-se este ano, que, apesar de muito jovem e ainda muito influente, é totalmente portador do liberalismo radical inspirado diretamente de grandes autores do século XX – Molinari, Mises, Rothbard, Leoni etc – revolução de Ron Paul no Estados Unidos e o Partido Libertário americano.
DG: No Brasil, dois partidos de libertários estão sendo criados: Libertários e Partido NOVO. Eles são “a esperança” de muitos Libertários. Você teria uma dica para dar a eles?
IC: Os libertários do movimento, como se sabe, está em andamento na França. Ele ainda é muito jovem, mas ele confia na experiência anterior – nos anos 80 – cuja experiência é de interesse.
Mesmo que os partidos libertários de todo o mundo não têm todos a mesma abordagem, parece que a estrita adesão a certos princípios relacionados diretamente ao liberalismo é um avanço fator na cena política.
Em primeiro lugar, a consistência e a coerência de ideias trouxe líderes para essas ideias… Ron Paul tem mostrado que é essencial para se manter sempre na mesma linha não alterar a posição em função das circunstâncias. Em seguida, comunicar-se fora dos canais normais, porque muitas vezes a imprensa e os meios de comunicação são, na verdade, relutantes em usar a mensagem Liberal. Finalmente, a ação eleitoral, que continua a ser a principal vocação de cada partido deve ter cuidado para não sair de um quadro muito estrito, ou face virar ódio popular para os políticos.
Para se manter a consistência com a ideia liberal, o libertário eleito nãopode buscar o poder para si mesmo, mas apenas para fazer avançar suas ideias. Assegurar esse objetivo paradoxal é provavelmente a principal e mais difícil atitude que esses partidos deveriam tomar.
DG: Na França, é difícil de espalhar as ideias libertárias no meio Estudantil?
IC: Isso é uma coisa tradicionalmente difícil. Nós pessoalmente conhecemos vários professores universitários que tiveram sua carreira arruinada por simplesmente se dizerem Liberais. A universidade na França há cerca de 40 anos é um reduto de comunistas e esquerdistas, quadro que é extremamente difícil de recuperar.
No entanto, nosso Instituto é uma prova de que a Internet e as redes sociais permitem agora que os jovens sejam alcançados além do sistema educacional. São os mais animados e curiosos a aprender sobre muitas questões atuais como: Liberdade, Direito, autores, história e eventualmente encontrar alguns “thinktanks” e, finalmente, terem acesso ao nosso site.
E felizmente, achamos então que os nossos esforços de qualidade e adequação de hábitos (tecnologias, vídeos, smartphones…) são pagas, porque nosso público está constantemente a crescer para mais de 3 anos.
DG: Qual a visão (elogios- críticas) do Instituto Coppet sobre a política econômica brasileira atual?
IC: Mais uma vez, nós não somos especialistas nestas matérias. O Brasil não é, de longe, o país mais conhecido na França. Mas, em uma perspectiva muito remota e global, no entanto, parece que é possível ver que você sofre dos mesmos problemas que a Europa, França e as grandes democracias, devido ao excesso de estatismo.
O louvor é difícil. Enquanto o Brasil tem experimentado um aumento nos últimos anos, para se tornar o primeiro do “BRIC”, mas à custa do sacrifício de suas terras e recursos não foi suficientemente incluídas no respeito pela propriedade privada, ou mais precisamente, respeitando o acesso legítimo de toda a terra. O país é conhecido por suas propriedades enormes, mas, ao mesmo tempo, para uma população que tem pouca chance de um dia construir uma casa em sua própria terra. E com a chegada de Lula da Silva, o país como muitos outros mergulhou ainda mais na utopia socialista.
Para os liberais, a recomendação é nenhuma surpresa: ajudar seus conterrâneos a perceber que o seu futuro não passa pelo estado mais burocrático, mas pela “laissez-faire”, a empresa, o capitalismo, mas um capitalismo liberdade de corrupção devido ao estado e corporativismo muito forte, que deve retomar seu lugar de direito.
DG: Liberais pedem que chefes de Estado ‘se tranquem numa sala’ até resolverem crise’. Quais seriam as medidas liberais indicadas para o fim da crise, partindo da França para toda a UE?
IC: A União Europeia é a fonte de muitos problemas na Europa. O primeiro que vem à mente é provavelmente a moeda. O euro na verdade é talvez a pior das moedas modernas, pelo menos na sua concepção. Não só ela sofre de defeitos de uma moeda tão completo fiduciária e virtual ‘moderno’, mas deve ser mais influenciada pelas políticas económicas iconoclastas e coordenadas de 28 países diferentes. A primeira medida para um retorno da Europa à uma economia saudável é o desaparecimento do euro como é atualmente, idealmente, preferem uma moeda física que seja ligada ao ouro por exemplo.
A segunda característica da União Europeia, é claramente a Política Agrícola Comum (PAC), que não para de arruinar a “economia de sobrevivência”, deixando a margem uma população agrícola que seria muito mais eficaz se essas assumissem o controle da nossa comida. Claramente o – mas também a França – Brasil que tem tudo a ganhar com a abertura do mercado Europeu e se suas trocas de grãos seguirem a simples lei da oferta e da procura, desde que o mercado brasileiro faça o mesmo.
Mas a Europa também é uma fábrica de normas desnecessárias completas do sistema. Algumas “essenciais”, na tentativa de definir os nomes dos queijos, para evitar que os países façam uma concorrência leal. Outras técnicas que impõem controles de objetos sem qualquer perigo.
E sem dúvida é aqui que devo concluir, em ligação direta com a sua primeira pergunta sobre a responsabilidade: Europa, França, infelizmente como a maioria das democracias, estão presas na ideia da democracia se tornar patrocínio socialdemocrata. Nosso papel e nossa modesta ação é para despertar as pessoas para esta realidade e trazê-las gradualmente para favorecer e trabalhar em direção a um mundo livre e moderno; moderno, porque ele será liberado da gangue do poder político e da burocracia.
 Algumas reflexões (Débora Góis)
Concluo a partir dessa experiência e contato com os amigos da França, que o trabalho na França segue como o nosso trabalho aqui no Brasil, que é cada vez maior, com objetivo de levar as ideias liberais para as universidades, para as pessoas que preocupam-se com o futuro, porque estudar política e economia é isso, buscar formas de melhorar a vida para nós mesmos e para todos os que nos cercam. Um trabalho que envolve uma mudança na base educacional, mudança na base da política e em diversos fatores. Seguiremos cada vez mais firmes na busca pela liberdade!
*Débora Góis; liberal clássica e acadêmica de Economia na Universidade Federal de Santa Maria.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

HUMBERTO SCHUBERT COELHO - O DESCOBRIMENTO DA ALEMANHA POR MADAME DE STAËL E A PROPOSTA DE REGENERAÇÃO DO ESPÍRITO FRANCÊS

No decorrer dos anos 2008, 2009 e 2010 foram realizados vários seminários pelo Núcleo de Estudos sobre Madame de Staël e o Romantismo (que eu coordenava na UFJF). Publico, a seguir, o trabalho apresentado, em 2009, por Humberto Schubert Coelho, um dos membros do Núcleo. Humberto é doutor em Ciência da Religião pela UFJF e foi meu aluno no Curso de Filosofia da mesma Universidade. Realizou dedicada pesquisa, na Alemanha, para a escrita da sua tese de doutorado em Ciência da Religião, defendida na UFJF, em 2012, com o título: Livre-arbítrio e sistema: conflitos e conciliações em Böhme e Goethe.

O início do século XIX é marcado por dois eventos absolutamente ímpares na história européia, a decadência e a mediocridade da cultura francesa, e a o alto vôo da cultura alemã rumo à supremacia do espírito europeu. Tais eventos se tornam ainda mais peculiares do que já seriam pelo simples fato de ser ofuscada a pátria das luzes em face da exaltação das obscuras terras do norte, porque além desta estranha inversão, o início do século marca também a ascensão política e militar da França napoleônica sobre os patéticos estados germânicos liderados por uma Prússia que já não goza do ilustre Frederico II à sua dianteira.

             À luz do gênio e da experiência de Staël, tais contradições se desfazem como a bruma matinal, porque pioneiramente se estabelece o casamento entre as artes e ciências abstratas, de um lado, e a compreensão pragmática e política, de outro. O olhar clínico daquela que dominava tanto a literatura de meia Europa quanto os meandros da política e economia dos Estados, devassou a fundo as sutis ligações entre a organização social e a alta cultura, dando-nos importantíssima contribuição para os futuros estudos tanto da antropologia cultural quanto das filosofias nacionais.

            É assim que Germanine Necker de Staël, suíça francesa, de educação inglesa, apaixonada pela Alemanha, elabora o que viriam a ser os primórdios da teoria culturalista, embora suas idéias, por partirem de uma mente que era também a de um gênio artístico e filosófico, guardassem traços infinitamente mais refinados do que certas variações posteriores poderiam apresentar. .  

            Em sua grande obra sobre a Alemanha, tais idéias encontram sua exposição mais sistemática e acabada, fazendo do livro, para além de sua proposta de divulgação das idéias germânicas em França, um marco teórico a ser seguido pelas futuras filosofias nacionais.

            A proposta ideológica do livro é clara, trazer aos fúteis e cínicos franceses as luzes e o espírito sentimental recém desenvolvido na alta cultura alemã, buscando assim salvar a pátria gaulesa da desorientação espiritual que a conduziu para a sangrenta revolução e para o despótico e burocrático governo do militar Corso.

            Ninguém, a não ser um alemão, estaria tão autorizado quanto Staël a escrever sobre isso. Intimamente associada aos irmãos Schlegel, tendo visitado Goethe e Schiller em Weimar, conhecedora de praticamente toda a literatura, poesia e filosofia alemã, nossa autora guarda ainda a vantagem de ser, ela mesma uma francófona das mais hábeis na perícia literária, de modo a evitar por suas origens a indisposição que um autor de língua alemã inevitavelmente provocaria ao elevar sua própria nação sobre a dos seus leitores latinos.

            O livro também toma a sua forma no momento histórico propício, pois a histeria populista da revolução, de cujo caos iria emergir e concretizar-se o autoritarismo napoleônico, propiciava então a adoração do Estado científico francês. Muito embora esta nação estivesse de fato à frente de todos os processos da civilização moderna até a época de Rousseau, os conturbados processos políticos eliminaram ou impediram o florescimento da inteligência e das condições necessárias ao florescimento da delicadíssima flor das belas artes e do livre pensamento. Enquanto mergulhava-se na onda cientificista recém surgida, matando as possibilidades de ascensão de novas idéias pela perseguição dos escritores que lha combatiam, a França acreditava-se justamente elevada ao mais alto grau da civilização, minando as possibilidades de que uma crítica qualquer vingasse em seu solo contra a doutrina oficial.

            A filósofa suíça mais do que percebeu esta disposição, identificou e pôs em claro suas causas e processos, bem como ressaltou, por outro lado, as dificuldades da recepção da cultura alemã, que tanto podia fazer pela recuperação do espírito francês. Estas dificuldades se resumiam nos preconceitos históricos que os franceses, com razão, nutriam quanto a cultura germânica, já que até o século XVII a contribuição norte-européia na alta cultura fora bastante subordinada diante do brilho latino em suas diversas fases produtivas.    

            Não poderia ser outra a introdução de uma obra que apresentasse a glória dos bárbaros, senão a análise detida das diferenças entre sua cultura e a latina. E por isso Staël lançou-se à investigação do espírito de povo destas duas grandes raças, identificando também nos eslavos um terceiro galho da árvore européia, embora este não encontrasse espaço na presente obra.

            O corte exato que Staël identificaria e/ou produziria entre as culturas latina e germânica, e que deveria corresponder à fronteira física entre França e Bélgica, de um lado, e Holanda e Alemanha, de outro, resumia-se no caráter etário destes dois grandes povos.

            A latinidade é o espírito antigo, a germanidade é o espírito jovial. Ambas as culturas se distinguem por sua memória e identidade históricas. Uma região corresponde ao antigo e experiente senso político de urbanidade, política e fidelidade à um governo único e supremo, seja na figura do imperador, seja depois na figura do papa ou dos reis. A outra região, notadamente fragmentada pelo tribalismo, ainda não havia constituído o mesmo senso cosmopolita, sedentário e politizado, conservando antes o espírito de independência (e, portanto, separação) que identifica aqueles que não se submetem a uma autoridade maior, ao menos uma que se encontre neste mundo. De um lado velhos hábitos, o cinismo daqueles que enfrentaram inúmeras decepções e desilusões, de outro a coragem, o entusiasmo, a ingenuidade de quem quer construir um mundo.[1]

            Embora nos caiba aqui tão somente desenvolver a visão de Staël, é necessário também frisar o elemento geográfico que ela pouco valorizou e que tão preponderantemente se firmou como referencial da formação de identidade dos povos. Quanto desta individualidade germânica não se deverá mais ao enclausuramento residencial em oposição aos encontros públicos e festas latinas?

            Neste sentido Heinrich Heine fez uma brilhante exposição de sua própria noção das diferenças entre a germanidade e a latinidade, não tão otimista para com o seu próprio povo quanto fizera Staël.

A crença nacional, muito mais ao norte do que ao sul da Europa, era panteísta: seus mistérios e símbolos se referiam a um culto à natureza, em cada elemento se venerava um ente maravilhoso, em cada árvore respirava uma divindade, e todo o mundo dos fenômenos era deificado; o cristianismo inverteu esta visão e, em lugar de uma natureza deificada, surgiu uma natureza endemoninhada...

Quão luminosos e, sobretudo, quão puros são os demônios em seus contos de fadas em comparação com nossa sombria e muitas vezes torpe cambada de espíritos... Quanto não se assustaria a fada Morgana se porventura topasse com uma bruxa alemã nua, besuntada de ungüentos , a cavalgar numa vassoura rumo a Brocken. Esse monte não é um alegra Avalon, mas um rendez-vous de tudo o que é abjeto e vil. Em seu topo está Satã, na figura de um bode preto.[2]



            Não obstante este relativo olvido do aspecto geográfico, a tese culturalista histórica de Staël sustenta-se argumentativamente e oferece uma pioneira e crucial demarcação do tema. De fato, Ortega y Gasset posteriormente iria levantar praticamente a mesma análise em Meditações sobre Quixote, inclusive mantendo-se a valoração positiva do espírito germânico em sua tendência para a abstração. Conforme este autor, o espírito germânico teria restituído em seu pleno vigor o patrimônio espiritual helênico que fora abafado por mais de mil anos de predominância do pragmatismo latino.[3]

            Deste ângulo historicista, a formação da identidade alemã, segundo Staël, remontaria ao modelo político do cristianismo medieval, o que em termos gerais significa o espírito de zelo e solidariedade cristãos interpretado segundo a formatação social da época a cavalaria dos séculos VI a IX.[4]

            Deste modo, o avento crucial da maturação do espírito de povo, que Staël defende como sendo a decadência da fase heróica, e que processou-se com os latinos no episódio da queda do Império Romano, só se repetiria entre os germânicos no presente histórico da autora. Esta experiência de fracasso coletivo serviria de provação purificadora para o espírito de identidade dos povos. A queda do Império Romano teria sido superada na adoção da identidade religiosa cristã e dos ideais de cavalaria, com os quais a Europa se manteria, de certa forma, unida sob uma mesma idéia. Entre os germanos este período corresponderia, a uma fase anterior da civilização, o da formação da primeira noção de uma comunidade espiritual de todo o povo germânico, motivo pelo qual os ideais de cavalaria foram assumidos de modo muito mais profundo e completo.

O espírito latino guardava experiências anteriores, e a sua cultura de cavalaria era uma adaptação, uma metamorfose. O espírito germânico elevava-se pela primeira vez à era heróica da criação de sua nação. Não por acaso o Sacro Império Romano Germânico torna-se a maior instituição política da Europa, não obstante sua instabilidade.  

            Também em grau maior que o dos seus correspondentes latinos, os germanos desenvolveram ao máximo os fundamentos do espírito de combate: amor à pátria e a liberdade, o amor à glória, e o fanatismo religioso.[5] Estes ideais pátrios e universalistas, típicos da era heróica que caracterizou também a Roma republicana e a Grécia de Péricles, fez da religião cristã alemã uma força agregadora poderosa o bastante para extirpar os interesses exclusivistas do escopo cultural germânico.[6]

            O mesmo caráter ingênuo e honesto que se expressa na cultura de cavalaria, está também presente no comportamento e mentalidade feminino da Alemanha. “A mulher alemã é tímida e modesta, beirando o provincianismo. O amor cortês idealizado é quase uma segunda religião na Alemanha.”[7]

            Homens e mulheres também compartilham as noções de honra, fidelidade, devoção servil, cumprimento do dever e generosidade cristã.[8] É impressionante como a descrição de Staël corresponde ao ideal romântico de Goethe em Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, obra em que a mulher perfeita é retratada como uma íntegra, prudente e fiel administradora da propriedade familiar. Goethe inclusive atribui a superioridade econômica alemã às virtudes das mulheres de seu país, visto que o papel do homem é o de angariar fundos, enquanto a mulher os conserva, distribui e multiplica. Os revezes econômicos das nações latinas estariam mais na frivolidade de suas mulheres do que na preguiça de seus homens.  

            As vantagens da cultura latina, por outro lado, revelam-se no refinamento e diversidade dos gostos e do intelecto. Enquanto o gosto germânico é simples e quase rude, o seu intelecto é plano, apesar de arrojado, os modos e gostos latinos mostram-se elaborados e cultivados pela arte, o intelecto identifica rapidamente nos olhares e entonações as variações do humor, a ironia, a malícia, a ternura.

Mas mesmo no que toca ao seu grau inferior de urbanidade e refinamento, a cultura germânica pôde extrair de suas desvantagens e atrasos os mais maravilhosos resultados práticos. Por mais severo e até deprimente que fosse o regime feudal alemão, ele serviu de ponto de partida para o estabelecimento da noção de lei e acordo, baseados ambos no empenho da palavra e na honestidade.[9] Esta característica vantajosa de transfigurar os próprios elementos negativos em energias fecundas não é um privilégio da cultura alemã sobre a latina, mas justifica-se no fato de ser o período de formação das nações (a sua era de ouro ou heróica), exatamente aquele em que todas as forças se multiplicam num arroubo produtivo. Se os latinos tiveram a sua era dourada em Roma, depois do que a sua civilização passou a caminhar mais lentamente, os germanos forjaram seu espírito entre os séculos IX e XVII..

À época de Staël, quando todas as nações encontram-se no período da liberdade, embora conservem suas distinções de formação, começam a se delinear certas apropriações culturais que, já naquela época, dão a impressão de uma futura homogeneização cultural. A autora critica duramente os alemães por abandonarem suas tendências naturais em prol dos modismos importados da França. Segundo ela, a frivolidade, a imoralidade e o sarcasmo, que neste país passam por civilidade, advinham antes da decadência da cultura francesa do que do progresso de suas supostas luzes. Poucas coisas podem ser mais danosas ao espírito, do que associar a ânsia moderna por liberdade ao instinto animal de libertinagem. Um é o progresso do espírito segundo a ordem, o outro é a barbárie que escraviza com a ilusão da falsa liberdade do desregramento.

Staël passa então a defender a elevação da civilização germânica dentro de seus próprios paradigmas medievais. Não se trata de desprezar esta cultura, fenômeno muito em voga entre os próprios alemães do período da Revolução Francesa, mas de compreender como a sua distinta formação encaminhou-se para um grau correspondente ou mesmo maior de civilidade em relação à cultura latina. É assim que inicia-se a tarefa sistemática de nossa autora em delinear, analisar e justificar o patrimônio da cultura alemã em suas diversas manifestações.

Acima de tudo destaca-se a língua, que injustamente considerada grotesca pelos latinos, mostra-se aos seus conhecedores um idioma poderosamente plástico, brilhante na poesia, abundante na metafísica, embora, a bem da verdade, muito positivo na conversação.[10] Em seguida reconhece na educação universitária alemã o ápice da instrução teórica. Motivada pela língua naturalmente expressiva e imaginativa, e pela índole contemplativa dos alemães, a sua educação tornou-se notadamente excelente na filosofia, na matemática, na teologia e nas artes literárias. Faltava-lhe, naturalmente o complemento da experimentação prática e da instrução para a vida, mas estas pareciam ser compensadas, e até hoje parece-se pensar assim na Alemanha, pelo sistema de estágios práticos ao final da formação. Quanto as disciplinas e às obras escritas, escasseiam referências à política, aos negócios e aos assuntos eminentemente “mundanos”.[11]  

            Afora esta caracterização peculiar, há um elemento cuja vantagem está menos sujeita a controvérsia, que vem a ser o modelo libertário de administração das universidade. Ao contrário do sistema inglês, onde há distinção entre os estudantes, conforme as suas origens, e da educação francesa mais firmemente submetida ao controle do Estado, a educação das universidades-livres (Freiuniversität) na Alemanha nem distingue os alunos, mesmo os estrangeiros, nem submete-se tão rigorosamente a um cânone político doutrinário externo.[12] Aí observa-se a meritocracia absoluta que recompensa bons alunos estrangeiros ou pobres, e uma diversidade enorme de políticas e orientações ideológicas de principado para principado. A fragmentação política também aqui mostrou-se positiva na formação de núcleos independentes de estudo e pesquisa.

            No fechamento deste assunto Staël permite-se expor suas próprias opiniões sobre a educação. Em primeiro lugar ela crê que o estudo de matemática, por sua aridez e falta de teor ilustrativo, não deveria ser ministrado na infância. A este período corresponderia melhor o estudo das línguas, que por sua natureza fluida seria mais adequada a formação da imaginação e do alargamento do pensamento. Através das línguas a criança toma contato com a noção de que diferentes pontos de vista, diferentes conceitos, podem aplicar-se ao mesmo objeto, abrilhantando a mente e fomentando a criatividade. As tarefas repetitivas ou exaustivas deveriam ser deixadas para a época em que sua função e necessidade são compreendidos.[13]   

A educação deve seguir os moldes intuitivos de Rousseau, mas com ressalvas, pois se o grande filósofo genebrino acerta nos fundamentos, ele peca quanto ao método. A filósofa ressalta que a criança não pode educar-se sozinha e conclui que é Pestalozzi o dono do melhor modelo educacional. Este outro autor suíço dá a educação, segundo Staël, o “método realista e aplicável, e que terá a maior influência sobre a marcha futura do espírito humano”[14]. Pestalozzi faz bem em preceder a aritmética com a Geometria. Assim também procediam os antigos, pois a geometria fala direto aos sentidos e impressiona com imagens vivas, enquanto a aritmética é abstrata e inacessível à mente de uma criança.

            Da educação chegamos, enfim, a literatura, que deve preencher as páginas restantes do primeiro volume do De l’Allemagne. A diferença preponderante da literatura alemã é a de que, lá, o escritor cria o seu público, educa o gosto conforme o seu gênio e a sua erudição. O público recebe as novas idéias, admira-se delas, e logo as adota. Na França dá-se também neste assunto o oposto. É o público que faz o escritor. Este último se educa e busca sempre a inspiração “correta” que possa agradar ao seu terrível juiz.[15] Tal arranjo tem os piores resultados imagináveis, já que é facilmente perceptível o fato de serem os autores, em geral, mais instruídos do que o povo nos assuntos literários. Assim não pensam, entretanto, os franceses da época de Staël, já o bom gosto e a erudição passaram a subordinar-se às determinações das massas, e a pena do poeta foi posta muito mais ao agrado das bolsas do que das musas.

            A literatura alemã é tão somente uma empreitada apologética da filosofia dominante, tem pouco de personalismo e muito pouco daquele desespero por inovar, que é típico da literatura subordinada à aprovação popular (tanto naquela época quanto agora). As crenças e idéias alemãs passam quase integralmente para a sua literatura. Por isso é fraca a literatura na época em que também frágil foi a sua filosofia. Só após Leibniz surgiram romances. Na Inglaterra a filosofia também interfere na literatura, mas o apreço pela experiência é maior, e muitas vezes se escreve sobre algo que ainda não está bem formulado na idéia. Assim, “a imaginação inglesa é inspirada pela sensibilidade, a imaginação alemã tem algo de rude e bizarro: a religião inglesa é severa, a alemã é vaga; e a poesia das nações é necessariamente um empreendimento de seu sentimento religioso.”[16]

Tal distinção formou no espírito norte-europeu duas tendências: os ingleses pensam conforme as ações, os alemães examinam as idéias independentemente de sua aplicação. Os ingleses são os que menos entendem os alemães, por seus interesses exclusivamente práticos. O gosto inglês é a política, os assuntos do país e da cidade.Os alemães, por sua vez, sequer possuem um país. Seus gostos são privados, interiores. O Francês, mesmo sendo latino, está mais próximo do alemão do que o inglês, pois o gosto do francês é pela beleza, e há mais beleza na teoria alemã do que na política inglesa. O inglês é um estóico, o francês é um epicurista, o alemão é um metafísico.

            Na seqüência a estes marcos teóricos Staël expôe longa, completa e detidamente os detalhes de cada tendência literária, de cada estilo, de cada autor relevante da cultura germânica. Wieland é convidado a abrir o cortejo. Sua reforma da língua alemã dotou-a de flexibilidade e sonoridade inéditas. Após Wieland, comenta-se Klopstock, Winckelmann, Goethe, Schlegel e Schiller. Staël mostra que são os indivíduos que formam a cultura alemã, não o espírito de povo (Volksgeist) difuso previamente. A idéia culturalista anterior aqui se revela como pano de fundo do primeiro movimento da civilização. O que realmente constrói os valores e as idéias são os heróis da pátria, não a identidade nacional. Aliás, a identidade nacional é apenas relativa antes do surgimento dos indivíduos que a concretizam, elevam e particularizam.

            A divisão das artes e da filosofia conforme os gêneros clássico e romântico também é uma constante na época. Os primeiros a fazer distinções deste tipo foram os irmãos Schlegel, Schiller, Goethe e Winckelman, na Alemanha, e Staël na própria França, logo após retornar de sua estada com estes. É forçoso admitir, portanto, que tanto a definição quanto o espírito romântico surgiram lá para serem, em seguida, importados por Madame de Staël.

            Conforme a excelente definição de Robert Richards “Depois que as reviravoltas das revoluções francesa e kantiana abalaram todas as crenças, mudaram todos os referenciais, surgiu uma geração que criticava tudo. A moral, a ciência e a religião pareciam quebrados, nada era confiável, nada era reconfortante, nada, exceto Goethe.”[17] Esta citação marca bem o papel e a influência que o biólogo poeta de Weimar exerceu sobre toda esta geração. De um lado, sua proposta pioneira do evolucionismo iria orientar em Lamarck, e, mesmo que indiretamente, Darwin na formulação de uma ciência biológica que transpusesse as proibições kantianas do conhecimento. Por outro lado, sua poesia iria representar o divino do homem, a completa harmonia entre o pequeno deus do mundo e o Deus único vivente na natureza. A arte se mostre, muito além de uma mera expressão, a ação criadora do homem que o faz semelhante ao divino. Estas duas concepções faziam do homem novamente uno com o mundo, novamente significativo, não pelas regras da própria mente, mas no concerto cósmico.

            Se o romantismo foi a saída dos artistas e filósofos para a aridez do materialismo e da filosofia de Kant, embora tenham absorvido muito desta última, o classicismo era um representante do período anterior, um período ao qual, dentre os artistas, somente o velho pertencera. Este período anterior, no seu melhor, representava o realismo aristotélico, o ceticismo quanto a tudo o que está para a além dos sentidos, a noção de que a arte é uma reprodução do real. Esta concepção deixou de ser confiável quando Kant levantou suspeitas quanto a nossa capacidade de apreender o real. Os românticos surgiram, então, da reação dos gênios à esta filosofia. Lembrando que aqui o conceito de gênio, desenvolvido no romantismo, não equivale ao do senso comum contemporâneo, associado à inteligência, mas representa aquele que está dotado de espírito criador, que é capaz de tirar de suas intuições poesia e verdade.

            Compreendido isto, observamos o quão simples e direta é a definição de Staël: O clássico é grego, naturalista, materialista, determinista. O romântico é cristão, espiritualista, heróico, é a liberdade.[18]

            Após esta última conceituação, Staël expõe e comenta trechos da poesia e da prosa alemãs.

            O segundo tomo da obra dedicada a Alemanha principia pela nova marcação conceitual, agora totalmente orientada para a filosofia. A autora revela aí todo o seu idealismo humanitário e intelectual, alegando que as injúrias, erros e acidentes causados por indivíduos e nações jamais diminuirão o valor e a elevação que a liberdade, a filosofia e a religião possuem em si mesmas.[19]

            Em seu espírito cartesiano, e seguramente influenciado por Kant, está ela convicta de que a estrutura da mente humana possui certos cânones universais, e que a divergência dos sistemas e opiniões entre os homens brilhantes se deve exclusivamente às diferenças de caráter. Para ela, o fundo das questões morais e religiosas depende da maneira de se considerar a origem e a formação de nossas idéias. Tal fundamentação recai, de rotineiro, numa dogmática qualquer, seja materialista, seja religiosa, seja a exaltação dos sentidos ou a da intuição, seja a autoridade da ciência, seja a da razão pura. Em qualquer que seja o caso, os argumentos divergem pela opção inicial e inclinação pessoal de cada um.

            Para a própria filósofa, se ela merece manter esta alcunha, faz-se preponderante não apenas escolher uma destas orientações, mas justificá-la, na medida do possível, para que a decisão expresse da melhor maneira aquelas convicções mais íntimas, e não seja apenas uma opinião. “Cabe-nos definir, portanto, se a fonte de nosso conhecimento está na alma ou na matéria. Se provêm dos sentidos, se forma-se na alma, ou se elabora-se pela mistura de impressões exteriores sobre nós e as faculdades interiores que já possuímos... A esta questão soma-se a mais decisiva de todas, se a fatalidade ou o livre-arbítrio decida as resoluções dos homens.”[20]

A primeira distinção crucial é a dos tipos de determinismo, materialismo, livre-arbítrio e espiritualismo. Para os antigos a fatalidade vinha dos deuses, e ela ressaltava o livre-arbítrio, pois a vontade humana pode lutar contra todos os reveses, e a resistência mora do homem é invencível. O fatalismo do materialismo moderno, ao contrário, destrói necessariamente o livre-arbítrio. Se os objetos exteriores são a causa de tudo o que se passa em nossa alma, que pensamento independente pode nos livrar de sua influência?[21]

A filósofa mostra-se muito consciente em relação aos tipos de associação entre aqueles quatro elementos acima expostos, e as conseqüências destas associações para a moral e para o conhecimento. Para justificar o determinismo moderno, associado ao materialismo, e que tanta decadência moral produziu na Europa moderna, foi preciso resgatar um terceiro povo até então ausente do tratado de Staël, o inglês. Como em todos os assuntos, a Inglaterra é o país da filosofia subordinada à sensibilidade física. Hobbes e Locke eram sensualistas.

Staël constata a instabilidade da moral fundada sobre conceitos e pensamentos sensualistas. Se a circunstância do meio define a moralidade do homem, ele não é mais que um mecanismo desprovido de responsabilidade, um ser cuja existência não difere de um animal ou mesmo uma ferramenta inerte, porque a sua própria razão não encontrará fundamentos para a esperança no gênio humano, no amor ou na religião. A moral do materialista subordina-se ao interesse pessoal, ao prazer, ao lucro, a beleza é reduzida ao agradável, e nada tem o seu valor por si, mas somente segundo o mais efêmero gosto do homem.[22] 100-101.

Para escorraçar as sombras destas mórbidas filosofias surge o idealismo moderno com Descartes. “Exame sistemático e crítico da própria razão fundam a verdade na própria alma. Mais do que Aristóteles, é a ele que devemos atribuir a fundação, o ABC do método filosófico por excelência.”[23] 106

Na seqüência da filosofia francesa, entretanto, o sensualismo inglês entrou na moda, produzindo o materialismo e a vulgaridade dos costumes. A filosofia germana é especulativa, como a grega, a latina é experimental, como a romana.[24] Descartes, Pascal e Malebranche são grandes exceções do pensamento francês, que sempre se caracterizou pelo positivo, pelo que impressiona, pelo que brilha aos olhos e toca o coração. “O que diferencia Grécia e Alemanha, de um lado, Roma e França, de outro, é que as primeiras são matemáticas, as segundas são pragmáticas. O pai da filosofia alemã, é Leibniz o maior matemático desta nação. O mesmo não vale para Hobbes, Locke ou Condillac”.[25]

O sensualismo francês cortou o vínculo espiritual desta nação com seus metafísicos (Descartes, Malebranche, Pascal), e a pôs em situação pior do que os ingleses, que vislumbram e aceitam uma religião da pura confiança no desconhecido. O francês, que precisa do sentimento e da sensação viva para crer, não pode encontrar qualquer esperança no sensualismo.

A filosofia experimental/pragmática tem a sua função. Ela explica o mundo e nos dá vantagens práticas. Mas não fala nada do infinito, do bom, do belo. Só a abstração lógica trabalha com tais conceitos sublimados.[26]

Kant, sendo duplamente alemão e iluminista, dá tanto valor à razão pura quanto à filosofia de sua época, e tenta restabelecer as verdades primitivas sem desprezar a importância da filosofia sensualista. Para unir metafísica e ceticismo estabelece um conjunto de regras de funcionamento do intelecto, anteriores à experiência, e justifica a existência destas regras pela estética transcendental. Porque se a forma da experiência está no espírito, desta forma pode-se inferir as condições em que a experiência pode acontecer, e esta análise constitui a teoria do conhecimento. A experiência se adapta a esta estrutura, e daí surge o conhecimento, que será tão exato quanto tiver sido bem executada a analítica dos conceitos e princípios do entendimento. A metafísica está proibida, pois a consciência do homem não pode estabelecer critérios de verdade superiores a esta modesta capacidade de avaliação das experiências. Conhecimento subordina-se à experiência, moral subordina-se ao sentimento, e assim nenhuma das duas vias conduz à dogmas metafísicos.[27]

Através do exercício de sua liberdade, o homem teria a noção de uma infinita grandeza interior. Kant produziu, de certa forma, um dualismo filosófico. De um lado ele provoca o subjetivismo de Fichte, filósofo este que acredita ser o mundo um resultado da ação do espírito humano, por outro lado Kant também permitiu o objetivismo de Schelling, que acredita ser a mente do homem um produto de uma natureza espiritualizada. Ambas as soluções tentam reunificar o mundo cindido de Kant.

A moral de Fichte resume-se em não se perder a consciência do eu, já que o mundo é um resultado dele. Muitos, entretanto, perdem-se na experiência exterior que o pensamento projetou para si mesmo, e perdem os laços com as origens do próprio pensamento.[28]

Em Schelling a objetividade do mundo é garantida por um panteísmo espiritual ou idealista. A unidade do homem com a natureza garante ao homem o conhecimento harmônico com todos os objetos que se-lhe deparam na experiência, simplesmente porque o homem é também produto da mesma natureza e tem com tudo uma identidade original. A moral, desta forma, é o exercício daquilo que já está em mim, posto pela natureza.[29]

Pela seu caráter eclético e sistemático, sua pretensão de unificar o espírito integral do homem, a filosofia alemã tem grande efeito na proliferação da cultura, arte, ciência e moral. Goethe é também um grande cientista, Schelling é também um literato, Schlegel é também um poeta.[30] E ninguém está amarrado à uma profissão ou limitado a um talento, mas todos os homens são um microcosmo que reflete todo o universo. Esta é a crença que produziu os gênios enciclopédicos da virada do século XIX.

A arte francesa do período exalta a frugalidade do mundo e da vida. A alemã exalta a divindade de ambos. O homem é retratado como um super-homem, um herói grego, um deus. Não é fortuito o fato de que a cultura alemã, guardando tão grandes expectativas sobre si mesma, exigindo tanto de seus gênios, atinge seu ápice no período de vida de Staël.[31]

Seguindo o espírito do imanentismo e do espiritualismo romântico, Brown descobriu o movimento intrínseco das moléculas, e atribuiu-o ao princípio vital. Este mesmo princípio vital constituiu para muitos estudiosos um intermediário entre espírito e matéria.Também conforme a teoria do magnetismo animal atestou-se que o pensamento e a vontade humana podem exercer poder sobre a matéria, inclusive à distância, sem qualquer agente material intermediário. Tais concepções fizeram da ciência do início do século XIX uma ciência romântica.[32] Nas palavras da própria: “Os mistérios de Elêusis, o culto dos egípcios, o sistema das emanações entre os indianos, a adoração dos elementos e do sol entre os persas, a harmonia dos números, que funda a doutrina de Pitágoras são traços de uma atração singular que reúne o homem ao universo.”[33]

As conseqüências morais desta nova visão de mundo, onde a natureza é vista como espiritual, e indissoluvelmente ligada ao homem, são das mais otimistas. “Goethe proferiu acerca da perfectibilidade do espírito humano um mote pleno de sagacidade: Ele avança viajando numa linha espiral.”[34]

Esta filosofia da perfectibilidade humana, da crença mística de que a vontade pode alterar o mundo, e da religião que harmoniza o homem ao Criador, produziu neste país uma elite empreendedora e corajosa. Há certos feitos que simplesmente não podem ser empreendidos pelo interesse pessoal. Feitos que exigem sacrifício, dedicação heróica, além das forças produzidas pelo lucro ou prazer. Ora, o homem que busca vantagens, prazer e segurança, não abrirá, justamente, mão de benesses sociais, conforto e poder em prol de uma grande idéia, de um grande sentimento. O homem que calcula suas vantagens não se lançará numa empreitada onde um bem ou beleza ideais estejam acima do agrado e da conveniência práticos. Por isso a nação idealista é maior do que a pragmática. Por isso a tocha da civilização repousa nas mãos daquelas nações que, em sua época, sabem elevar-se acima das tarefas de manutenção do corpo e se lançam à realização de idéias.[35]

Quanto à sensibilidade os alemães se distinguem ainda mais dos franceses do que quanto ao pensamento. “A sensibilidade alemã não tem a afetação, o arrebatamento e a paixão franceses. É antes uma sensibilidade sempre elegante, sempre moralizada, nunca sentimentalista, mas muito sentimental e terna.”[36] Neste ponto a autora endurece sua crítica ao momento de decadência de sua nação: “ a história do mundo é um trabalho de Sísifo, uma guerra entra a mediocridade e o interesse mundanos e o sentimento elevado dos filósofos e religiosos.”[37] Daí para o final o texto começa a tomar contornos proféticos. A exaltação da Alemanha e o rebaixamento da França revelam-se, mais e mais, como estereótipos ou arquétipos, embora não se deva desconsiderar que ela realmente crê estar diante de um momento favorável para a cultura germânica, e use deste fato para humilhar o orgulho e a pretensão dos franceses.

O tema da perfectibilidade, tomando o centro dos seus esforços, associado ao sentimento místico desenvolvido pelo romantismo, deixa ainda mais clara a intenção pedagógica da autora de resgatar o espírito francês de sua queda no sensualismo. Trata-se de uma obra de educação nacional, que opera por uma espécie de psicologia reversa, dando a entender o quanto a França se apequenou diante da Alemanha.

Por isso, as mais belas e empolgadas páginas de Staël são as referentes ao entusiasmo alemão (Schwärmerei), movimento religioso caracterizado pelo sensualismo místico, totalmente oposto ao sensualismo materialista. Por este movimento, a Alemanha se habituou a sentir o divino. Aqui a autora é, apesar de sua apreciação pessoal, cuidadosa: “A natureza religiosa dos germânicos os dispõe tanto ao entusiasmo produtivo quanto ao fanatismo destrutivo. Por outro lado, o cinismo latino nos dispõe tanto à melancolia e a malícia quanto à elegância intelectual.”[38] Mas daí em diante a crítica da lugar a apologia: “A maioria dos escritores alemães refere-se a um sentimento do infinito, que produz o entusiasmo ou êxtase. Todos os sacrifícios pessoais são incentivados em troca do sentimento do infinito.”[39]

A doutrina mística se passa por severa porque comanda o desapego do eu, o que se mostra com razão muito difícil: mas esta é na verdade a fé mais doce de todas. Ela dita: faça da necessidade uma virtude. Tal pensamento deixa ao cargo da Providência o governo do mundo e traz consigo uma consolação íntima... que mal pode advir de uma crença que reúne a calma do estoicismo ao sentimento cristão? Esta mesma calma quanto aos eventos inevitáveis não se aplica aos defeitos do próprio homem, pois nada há de mais contrário ao espírito do Evangelho do que esta maneira de interpretar a submissão à vontade de Deus... Enquanto a religião oficial é um comando, a religião mística é o cultivo de um apelo natural do coração.[40]



Qualquer que seja o gênero do espírito, o gênio artístico combina-se sempre ao religioso. Na Alemanha a filosofia idealista, o cristianismo místico e a verdadeira poesia são, por assim dizer, oriundos da mesma fonte; os filósofos, os cristãos e os poetas se reúnem todos num comum desejo. A saber, o de difundir as luzes e elevar os caracteres de seus espíritos através das idéias. “Conforme afirma o chanceler Bacon, a prosperidade é a benção do Antigo Testamento, a adversidade é a benção do Novo Testamento. Daí deriva o axioma dos místicos de que a dor é um bem.”[41]

Staël reconhece corretamente que o mais famoso destes filósofos religiosos é Jakob Boehme. Ele considera a contemplação da natureza como um dos dogmas principais do cristianismo. Acreditava ver em todos os fenômenos do mundo os traços da queda do homem e de sua regeneração. Conciliava perfeitamente a submissão do homem ao destino e o mais vivo sentimento de liberdade, pois, para ele, Deus determina o plano e a meta, o homem tem de esforçar-se para cumpri-los, de que se compreende que a moral e a submissão são complementares.[42] 282.

O médico Heinrich Schubert possui uma das teorias mais interessantes, segundo a opinião de Staël.

Para ele os indianos teriam uma noção descendente de metempsicose, ou seja, uma que condena a alma humana a passar para os animais e plantas, para punir-lhe pelo mau uso da vida. Só dificilmente pode-se imaginar um sistema de uma tristeza mais profunda que esta, e as obras indianas se reservam esta dolorosa empreitada... o sistema de Schubert é muito mais consolador, onde se representa a natureza como uma metempsicose ascendente, na qual, após adentrar-se na existência humana, o princípio vital promove-se continuamente, avançando de degrau em degrau, rumo ao aperfeiçoamento mais completo. Schubert crê assim que na passagem das épocas o homem dota-se de um sentimento mais vivo e delicado dos fenômenos existentes, desvendando por estas impressões os segredos mais íntimos da natureza... é assim que a imaginação do mundo antigo pôde renascer como uma fênix, extirpadas as cinzas de seus erros.[43]



            Pelas suas citações e comentários fica claro que Madame de Staël está enfronhada, conquistada pelo mais pleno entusiasmo. “Entusiasmo em grego significa Deus em nós. De fato, quando a existência humana sofre uma tal expansão ela denota algo de divino.”[44] E é justamente esta característica que se tornou o trampolim dos luminares do progresso alemão em fins do século XVIII.

            O sentimento romântico de união à natureza e ao divino, a crença na perfectibilidade progressiva da alma humana, o acolhimento da idéia de intuição intelectual, que a principio lhe parecia um traço obscuro do entusiasmo alemão, são as características que fizeram de Staël a mais autorizada representante da filosofia germânica em sua língua. Por ela entrariam em França todos aqueles elementos que ela admira e valoriza. Ela mesma, embora se reserve na posição de comentadora e observadora, dotou seus textos de tanta beleza, lirismo e clareza conceitual que logrou unificar a o espírito racionalista em que foi educada e o sentimento romântico que sempre lhe caracterizou, mas que se desenvolveu particularmente em contato com a Alemanha. Ela mesma está impregnada do gênio que identifica naqueles poetas e filósofos que em parte se tornaram seus ídolos. E por isso tornou-se uma força fecunda na perfectibilidade do gênero humano.

 “Por meio do entusiasmo, tudo toma uma proporção bela e elevada. O entusiasmo é tolerante, não porque seja indiferente, mas porque nos faz sentir a beleza de todas as coisas. A sociedade desenvolve a civilização, mas é só a contemplação do divino que produz o gênio.”[45]



BIGLIOGRAFIA



HEINE, Heinrich. Contribuição à história da religião e filosofia na Alemanha. São Paulo: Iluminuras, 1991.



ORTEGA y GASSET, José. Meditations on Quixote. New York: Norton Library, 1961.



RICHARDS, Robert. The Romantic Conception of Life: Science and Philosophy in the Age of Goethe. Chicago: The University of Chicago, 2002.



STAËL, Madame de. De l’Allemagne. 2 Volumes. Paris: Garnier-Flammarion, 1968.





[1] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 45-47.

[2] Heinrich HEINE. Contribuição à história da religião e filosofia na Alemanha. Pg. 27-28.

[3] José ORTEGA y GASSET. Meditations on Quixote. Pg. 75-78.

[4] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 46.

[5] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 61.

[6] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 61.

[7] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 66.

[8] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol. 1. Pg. 69.

[9] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 70.

[10] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 121.

[11] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 137.

[12] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 138.

[13] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 139.

[14] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 144-145.

[15] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 160.

[16] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg.167.

[17] Robert RICHARDS. The Romantic Conception of Life: Science and Philosophy in the Age of Goethe. Pg. 193.

[18] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.1. Pg. 211-213.

[19] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 89.

[20] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 92.

[21] Idem.

[22] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 100-101.

[23] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 106.

[24] Novamente a mesmíssima definição de José de ORTEGA y GASSET. Meditations on Quixote.

[25] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 120.

[26] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 124.

[27] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 128-135.

[28] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 147.

[29] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 149-151.

[30] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 155.

[31] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 160.

[32] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 170-171.

[33] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 172.

[34] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 174.

[35] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 183-190.

[36] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg.225.

[37] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 230.

[38] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 237.

[39] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 238-239.

[40] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 268.

[41] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 273.

[42] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 282.

[43] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 294.

[44] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 301.


[45] Madame de STAËL. De l’Allemagne. Vol.2. Pg. 306.